Os problemas do mundo em uma cabine

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Lá dentro, diante da urna eletrônica, estaremos votando, conscientemente ou não, para apressar o fim do mundo ou para impedir esse desfecho

Vamos imaginar que você tenha sido instado a apresentar uma lista com os mais graves problemas do mundo. Se essa fosse a tarefa, qual seria sua lista?

Cada um de nós teria uma lista diferente, mas aposto que a sua lista teria, assim como a da grande maioria das pessoas razoavelmente informadas, alguns temas comuns como: 1. Aquecimento global; 2. Guerra; 3. Erosão das democracias; 4. Fome; 5. Desigualdade social; 6. Saúde Pública; 7. Violência contra a mulher; 8. Racismo.

Difícil que a lista não comece pelo aquecimento global e pela guerra, porque são esses dois problemas que podem acabar com a vida humana no planeta. Os relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, o IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change), programa das Nações Unidas que reúne centenas de cientistas, projetam riscos crescentes para a habitabilidade de vastas regiões do globo, para a segurança alimentar e hídrica de parcelas majoritárias da população mundial e para a estabilidade dos ecossistemas que nos sustentam. O tema da guerra ganhou, ao mesmo tempo, uma atualidade dramática depois que líderes autocratas, como Putin e Trump, acionaram suas máquinas de morte para a conquista de territórios e de petróleo. O cenário envolve massacres praticados também por outros Estados, como o que segue ocorrendo contra o povo palestino, patrocinado pelo governo de Netanyahu; como o que atingiu o povo Masalit no Sudão; os Rohingya em Myanmar ou os Uigures na China.

A fome, por seu turno, é um problema extremo que atinge milhões de pessoas em todo o mundo, o que demanda políticas públicas de segurança alimentar; vale dizer: exige a presença do Estado. O mesmo vale para a desigualdade social. Nenhum país do mundo avançou na construção de uma sociedade mais justa deixando ao mercado a resolução do problema. Há uma extensa e importante herança liberal a ser resgatada sempre que pensamos em organização social – a mesma herança que nos faz desprezar ditaduras, mas nenhuma ilusão sobre o que ocorre quando o mercado não é fortemente regulado por agências públicas e quando os Estados não possuem políticas que promovam um mínimo de igualdade material. Apenas Estados democráticos podem ser permeáveis a demandas que afirmem o interesse público e que assegurem a paz. Não por acaso, são líderes autocratas que fazem a guerra e que estimulam a visão predatória da natureza; processos em que os interesses das empresas mais poderosas se impõem sobre os direitos das populações fragilizadas. O processo de deterioração das democracias e a emergência de movimentos neofascistas em todo o mundo são, por isso, ameaças muito reais à civilização.

Quanto à saúde pública mundial, a epidemiologia contemporânea reconhece o risco de novas pandemias como estruturalmente elevado em um mundo globalizado, marcado pelo aumento das interfaces zoonóticas, velocidade de circulação de pessoas e mercadorias, degradação ambiental acelerada e fragilidades persistentes nos sistemas de vigilância epidemiológica. A covid-19 não inaugurou esse consenso; na verdade, confirmou-o.

A violência contra a mulher é um outro tipo de pandemia disseminada pela estupidez e que também demanda políticas públicas de prevenção capazes de proteger mulheres em alto risco e responsabilizar os indivíduos que habitam a “machosfera” e que não suportam a igualdade de gênero. O racismo, por fim, é uma tragédia que vitima milhões de pessoas em todo o mundo, como as populações negras e árabes imigrantes na Europa e latinas nos EUA, acossadas pelo nacionalismo chauvinista, mas também muitas outras etnias em luta por reconhecimento, como o povo negro no Brasil, os povos indígenas nas Américas e na Austrália, os muçulmanos na Índia, os Hazaras, no Afeganistão, os Romani, na Europa, os Tâmei, no Sri Lanka.

O Brasil possui todos esses problemas e muitos outros, mas acredito que esses oito temas de minha lista estão, de fato, entre os grandes e mais urgentes desafios internacionais. Sendo assim, o que os candidatos à Presidência, ao Governo do Estado, ao Senado, à Câmara Federal e à Assembleia pensam a respeito deles? Logo ali adiante, a decisão de escolha será nossa. Estaremos votando, conscientemente ou não, para apressar o fim do mundo ou para impedir esse desfecho; para garantir que o Brasil possa ocupar um lugar de destaque no mundo como exemplo de redução do desmatamento e preservação dos seus biomas, ou como o país do garimpo ilegal, da destruição da floresta e do massacre dos povos indígenas. Votaremos para que o Brasil seja uma referência em saúde pública com o SUS ou uma tragédia do negacionismo antivacina; como um país soberano ou como uma nação subordinada a um império. No dia em que formos às urnas, estaremos votando pela igualdade racial e de gênero ou em favor da ideia de que o racismo e o patriarcado são “mimimis”.

Dentro de uma cabine de votação, nos cabe afirmar que, apesar de todos os problemas da democracia, não admitimos o golpe de Estado, a visão miliciana do mundo, o elogio à ignorância, a proposição da violência como política pública e o desprezo aos pobres e às minorias. Os leigos pensam que a eleição é sobre candidatos, sobre personalidades ou sobre partidos. Não é. É do mundo que as eleições tratam. Da possibilidade dele, inclusive.

Texto publicado originalmente no Jornal ExtraClasse, em 22 de maio de 2026.

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