Desengajados e cautelosos: Notas sobre a complexidade política

Falar em polarização política nesse novo cenário equivale a desconsiderar a ameaça golpista e a dissolver as responsabilidades pelo clima de intolerância

Quem acompanha os debates políticos tais como eles repercutem na mídia e nas redes sociais deve imaginar um cenário de polarização política extraordinária e de embates ruidosos em torno de definições ideológicas do tipo “esquerda X direita”. Há, de fato, um discurso persistente em torno da ideia de que vivemos uma realidade política marcada pela intolerância entre os “extremos”, como se o Brasil estivesse em uma encruzilhada onde “os dois lados” concorrem para o caos.

Um olhar um pouco mais atento verá que a realidade política nacional sempre conviveu com a polarização política ao longo de todo período de redemocratização. Até as eleições de 2014, pelo menos, dois partidos, o PSDB e o PT, demarcaram os principais campos eleitorais. A partir de 2018, entretanto, essa polarização foi desfeita com a emergência de uma nova força política situada à extrema direita que passou a alimentar um discurso antissistema, apostando em uma estratégia de ruptura institucional. O fenômeno, conhecido como “bolsonarismo”, mobilizou expressivos contingentes sociais em um processo de radicalização on-line que terminou por hegemonizar o campo conservador, atraindo a direita tradicional e os chamados “liberais” para posições neofascistas. O PSDB e os demais partidos tradicionais da direita foram engolidos pelo bolsonarismo, e os termos da disputa real foram deslocados para uma disputa que, pela primeira vez desde 1964, colocou o Brasil entre as possibilidades da democracia ou da ditadura.

Falar em “polarização política” nesse novo cenário equivale a desconsiderar a ameaça golpista e a dissolver as responsabilidades pelo clima de intolerância que, de fato, se alarga e que chegou ao paroxismo da mobilização de sanções de uma potência estrangeira contra o Brasil, estratégia que permanece impune e que não é caracterizada pela mídia tradicional como traição à Pátria.

Os dados revelados recentemente pela pesquisa da More in Common em parceria com a Quaest a respeito das posições político-ideológicas dos brasileiros são, nesse contexto, muito interessantes e ajudam a compreender a complexidade das disputas políticas. Longe de um campo de batalha binário, a sociedade brasileira aparece como um mosaico em que as vozes mais estridentes e com maior presença nas redes sociais pertencem, na verdade, a minorias.

Fonte: More in Common/Quaest

A pesquisa identificou “seis campos” político-ideológicos a partir das respostas a um questionário com quase 200 perguntas, respondido por 10 mil brasileiros. À esquerda, o grupo mais ativo foi chamado de “Progressistas militantes”.  No outro lado, na posição mais à direita, a pesquisa identificou um núcleo que chamou de “Patriotas indignados”. Esses dois grupos são os mais engajados e aqueles que mais se expressam nas redes sociais. São também os mais divulgados pela cobertura da imprensa focada no conflito. Eles representam, entretanto, apenas 10% das posições do eleitorado. Entre eles, quatro outros grupos: “Esquerda tradicional”, “Conservadores tradicionais”, “Desengajados” e “Cautelosos” formam uma grande maioria que se mantém silenciosa, sem que haja um alinhamento automático com quem quer que seja. “Desengajados” e “Cautelosos”, que representam 54% do eleitorado, são orientados por temas que dizem respeito aos desafios de suas vidas, como emprego, saúde, educação e segurança, e são céticos com relação às narrativas ideológicas. A pesquisa mostra que a maior parte desse grupo compartilha noções conservadoras a respeito de família, religião e ordem social, mas não é indiferente a temas como distribuição de renda e a políticas públicas que reduzam as desigualdades.

Os setores progressistas possuem, assim, uma chance de lidar com um eleitorado conservador, isolando a extrema direita, caso calibrem o discurso e sustentem bandeiras que promovam a unidade e apontem para reformas efetivas. O tema das políticas públicas, aliás, parece ser essencial para se barrar o processo de radicalização em curso proposto pela extrema direita.

Em estudo sobre fatores de risco para a radicalização, sustentei que esse processo não se baseia em um perfil psicológico definido, mas em trajetórias e fatores contextuais. Entre os fatores de risco conhecidos, incluem-se o sentimento de injustiça (real ou imaginário), o ativismo, a percepção de superioridade do próprio grupo e a distância percebida em relação a outras pessoas ou grupos. A relevância do tema é evidente diante das ameaças à democracia em vários países, incluindo o Brasil, pela ação de grupos de extrema direita, que frequentemente se valem de narrativas maniqueístas para legitimar a violência. Ignorar a complexidade desses fatores e a predisposição conservadora de grande parte da população pode, inadvertidamente, alimentar o sentimento de alienação e injustiça que serve de combustível para a radicalização, empurrando indivíduos para os braços de movimentos extremistas.

Para os progressistas, o imperativo é claro: a linguagem importa, e muito. As ideias, por mais justas que sejam, devem ser apresentadas de forma a dialogar com os valores e as preocupações da maioria, evitando a criação de barreiras comunicacionais que só beneficiam os extremistas. Não se trata de abrir mão de bandeiras históricas, mas de encontrar novas formas de empunhá-las, construindo pontes em vez de muros. Isso implica em uma comunicação mais empática, que reconheça as preocupações legítimas da população e que apresente as propostas como soluções pragmáticas para os problemas que afetam a vida das pessoas. É preciso, em síntese, desarmar as narrativas que alimentam a radicalização. A democracia brasileira depende, em grande medida, da habilidade de transcender os discursos ruidosos e de dar voz e vez àqueles que, até agora, permanecem invisíveis no debate público: os desengajados e os cautelosos.

Texto publicado originalmente no Jornal ExtraClasse, em 19 de novembro de 2025.

Foto: Tânia Rego/Agência Brasil

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