O DEMÔNIO DO MEIO DIA
13 de novembro de 2002
Bons livros nos trazem informações ou reflexões importantes e, por conta disso, nos fazem mais cultos. Não necessariamente nos fazem mais humanos. Há determinados livros, entretanto, que simplesmente nos deixam melhores. Penso que "O Demônio do Meio Dia", de Andrew Solomon ( Objetiva, 483 pág.) seja um deles. O livro procura sintetizar aquilo que se acumulou de conhecimento sobre a depressão, uma doença que, em sua forma crônica, atinge 19 milhões de pessoas só nos EUA, mais de dois milhões de crianças entre elas. Dizer isto, entretanto, seria pouco para recomendá-lo. Ocorre que o autor é, ele próprio, um sobrevivente. Vitimado pela depressão, Solomon experimentou a doença em seus estágios mais graves com colapsos mesmo durante o período de 5 anos em que realizou sua notável pesquisa. Para ele, certamente, vale a frase de Ovídio: "Dê boas vindas à dor, pois você aprenderá com ela". Antes da pesquisa, então, o livro é um testemunho e uma comovente história de superação pessoal. A depressão é, hoje, a principal causa de incapacitação no mundo e ceifa mais anos-vida do que a guerra, o câncer e a AIDS juntos. Atualmente, cerca de 28 milhões de americanos ( um em cada dez) tomam ISRSs (inibidores seletivos de recaptação de serotonina - a classe de drogas a que pertence o Prozac). Estudos recentes estimam que metade da população americana terá sintomas de depressão. Esses números indicam um aumento impressionante na incidência da depressão nos últimos 20 anos. Quando se tropeça ou se escorrega, nas frações de segundo que nos separam do contato com o solo, antes de tentarmos amortecer a queda com as mãos, há uma sensação específica e aguda de terror. Solomon diz que se sentia assim durante horas a fio. O desconforto desses momentos é descrito por ele como uma ânsia de vômito em um corpo sem boca. "Com a depressão, sua visão se estreita...o ar parece espesso e resistente como que cheio de massa de pão... é como sentir sua roupa se transformando em madeira, uma rigidez nos cotovelos e joelhos progredindo para um terrível peso e uma isolante imobilidade que o atrofiará e, dentro de algum tempo, o destruirá..." Colapsos dessa natureza podem se arrastar por meses e, quase sempre, retornarão. O livro é uma tentativa de descrever esse fenômeno e de entendê-lo com base nos avanços da medicina, da psicofarmacologia e das mais variadas terapias. Solomon abre um caminho fértil e sem preconceitos para o debate sobre temas complexos como o suicídio, o abuso de drogas e as formas de tratamento sustentando a necessidade de uma interação - o que pressupõe um diálogo nem sempre tentado - entre as abordagens psicosociais e psicofarmacológicas. Tudo isso entremeado com relatos de casos, dados estatísticos, sugestões surpreendentes e informações imprescindíveis. Um grande livro, em síntese, que deveria ser lido não apenas pelo público leigo, mas também pelos especialistas. Um livro pelos Direitos Humanos, comprometido com a vida e que, imagino, salvará muitas vidas.