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VER E ALUCINAR Imprimir E-mail
16 de junho de 2012
Marcos Rolim

Outro dia, levei aos meus alunos cartões com duas pequenas figuras: um sinal cruzado e uma bolinha preta; ambas sobrepostas a um fundo claro e padronizado como uma cortiça.

Pedi, então, que eles fechassem o olho esquerdo, fixassem o olhar no sinal cruzado e aproximassem lentamente o cartão. Há um momento neste trajeto em que uma das imagens (no caso, a bolinha preta) irá “desaparecer”. O experimento foi feito, pela primeira vez, em 1668 pelo filósofo e matemático francês Edme Mariotte. Por acaso, ele descobriu que há um espaço na retina sem fotorreceptores. Este ponto cego de cada olho é compensado pelo outro, o que faz com que, em condições normais, não o percebamos. Mas o que há de surpreendente não é o ponto cego. Ocorre que quando a figura alternativa desaparece do campo de visão, nosso cérebro preenche aquele espaço com o padrão do fundo da figura. Passamos, então, a ver algo que não existe. Quem fizer o teste poderá legitimamente se perguntar: mas se o que estou vendo não existe, então como estou vendo?

A resposta da ciência para este fenômeno é tão simples quanto perturbadora. Ela começou a ser construída no século XIX quando Hermann von Helmholtz, médico e fisico alemão, desconfiou que a visão não era só aquilo que a luz trazia à retina e, daí, ao cérebro. Ele concluiu que o cérebro fazia pressupostos a partir da experiência anterior. Em outras palavras: ver seria mais propriamente a atividade cerebral de situar informações dentro de paradigmas ou molduras de sentido; um processo automatizado e inacessível à consciência. Os cientistas sabem que o córtex visual é um sistema neural complexo com subsistemas especializados. Alguns lidam com cores, outros com movimento,  com bordas e, assim, sucessivamente. O cérebro processa as diferentes informações para totalizar, ainda que no erro, uma imagem dotada de sentido. Daí as ilusões de movimento que algumas gravuras produzem, ou a programação genética que nos faz ver imagens na madeira, em azulejos ou nuvens, por exemplo. O mesmo processo explica a chamada Síndrome de Anton, distúrbio em que a cegueira produzida por derrame cerebral não é reconhecida pelos pacientes.

Nestes casos, as pessoas afetadas seguem “vendo”, mas as imagens produzidas só existem nas tempestades produzidas pelo turbilhão de seus neurônios. Suas respostas inexatas sobre a realidade não são mentiras, mas ilusões de um cérebro danificado que segue tentando totalizar as impressões circundantes. Por isto, sindrômicos de Anton só começam a perceber que algo está errado quando passam a esbarrar em objetos. As repercussões epistemológicas destas descobertas são evidentes e soterram as pretensões de neutralidade ou objetividade para todo o sempre. Ver e alucinar, afinal, talvez sejam mesmo verbos siameses. Lembrar disto nos ajudará a desconfiar mais do que vemos e a nos preocupar com o que deixamos de ver.

Dica: Quem tiver interesse nestes temas, terá muito prazer ao ler o recém lançado “Incógnito: as vidas secretas do cérebro”, de David Eagleman (Rocco, 286 pg.).
 

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