| NINGÚN NOMBRE |
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| 17 de dezembro de 2011 | |
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Marcos Rolim
Ao final dos anos 70, os moradores da região de Laguna de Rocha no Uruguai souberam dos corpos trazidos pelo mar.
Em muitos casos, pedaços de corpos, com mãos e pés ainda amarrados. Não se sabe quantos foram, mas os habitantes acompanhavam a chegada pelo insuportável cheiro a cada vez que o centro de saúde recebia os restos putrefatos. Os primeiros corpos foram necropsiados, mas o médico que efetuou os exames morreu misteriosamente. Sabe-se hoje que o governo uruguaio proibiu as necropsias. Os restos mortais foram, então, enterrados sem lápides. Eram os “NN”, pessoas de “ningún nombre”. Em Laguna de Rocha, entretanto, o coveiro marcou as sepulturas com cruzes de ferro e alguém, presumivelmente Daniel Rey Piuma, um marinheiro uruguaio que se exilou no Brasil, tirou centenas de fotos daqueles corpos estraçalhados. Este arquivo, que permaneceu confidencial durante 32 anos, agrega, além das fotos, relatórios dos serviços de inteligência do Uruguai e outras evidências. O dossiê acaba de ser entregue pelo secretário executivo da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), Santiago Cantón, ao juiz argentino Sérgio Torres e oferece, pela primeira vez, provas materiais a respeito dos “vôos da morte”, uma das realizações da ditadura militar argentina através da Escola de Mecânica da Armada. Estima-se que milhares de jovens militantes da esquerda argentina foram embarcados em aviões e jogados em alto mar, ainda vivos. Mas algo não saiu como o previsto e mudanças nas correntes marítimas empurraram parte do horror de volta ao continente. Na Argentina, a verdade aparece de todos os lugares, inclusive do mar.
No Brasil, ainda não temos verdade. Grande parte de nossa elite política – além de, é claro, os militares e impressionante número de pessoas das classes médias, jornalistas inclusive – entende que não devemos passar a limpo as responsabilidades envolvidas em práticas como a tortura, o estupro de presas políticas e a desaparição de cadáveres ao longo da ditadura. Anistia, dizem, é esquecimento. Mas esquecimento do quê? Para “esquecer” algo – no sentido de virar uma página, de superar uma dor, já que ninguém pode decidir não lembrar - é preciso identificar um objeto, ter acesso a relatos, saber dos nomes, das práticas. “Nenhum nome”, nos dizem; nenhuma prática, nenhuma responsabilidade. Seria mesmo incômodo para muitos dos que hoje se proclamam “liberais” confrontar o fato de que estiveram ao lado da ditadura desde sempre; que calaram quando as pessoas desapareceram; que – mesmo depois da auto-anistia imposta pela ditadura ao País – calaram novamente quando um “acidente de trabalho” fez explodir uma bomba no colo de dois bandidos do Exército em um puma no Rio Centro. A ditadura se prolongou por mais de 20 anos no Brasil porque estas pessoas a sustentaram, porque empresários financiaram aparelhos de tortura como a OBAN, porque um bando medíocre de políticos e intelectuais defenderam o medo, as eleições indiretas, as cassações, as prisões arbitrárias, a censura à imprensa e tudo o mais. Uma turma que está aí até hoje, sem arrependimento ou autocrítica. É esta mentira que precisa ser mantida a todo custo. Inclusive quando discutimos se prédios públicos, logradouros e ruas devem seguir com o nome de ditadores. |























