| AS FACADAS E A TV |
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| 27 de abril de 2002 | |
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Um menino de 9 anos, morador da periferia de Brasília, deu 25 facadas em uma garota de 7 anos, com quem costumava brincar. A cena de horror foi inspirada pelo filme "Brinquedo Assassino" exibido alguns dias antes pela TV. O debate sobre a responsabilidade da mídia em episódios similares em todo o mundo não pode mais ser desconsiderado no Brasil.
Um estudo feito em Glasgow, com 10 alunos de 12 anos detectou que todos haviam assistido ao filme "Pulp Fiction" de uma a 11 vezes (!) Mostrou-se, então, às crianças, fotos de cenas do filme e se solicitou que elas escrevessem o que lembravam do script dessas partes. Os pesquisadores descobriram que as crianças recordavam os diálogos quase que palavra por palavra. Pulp Fiction é, atualmente, um cult na Grã Bretanha onde já foi assistido por 42% dos jovens entre 10 e 16 anos. Em consequência, a frase de John Travolta em uma das cenas mais violentas - "Cara, atirei no rosto de Marvin" - tornou-se um lema entre os garotos.
Nos EUA, um jovem terá assistido, aos 18 anos, a cerca de 18 mil assassinatos na TV. Dados desse tipo têm estimulado inúmeros estudos. O projeto mais ambicioso na área é o National Television Violence Study (NTVS) que vem monitorando a programação de 23 canais de TV nos EUA. Por conta desse projeto sabe-se que a violência na TV aparece, normalmente, dentro de um contexto que termina por legitimá-la. Assim, em 75% das cenas violentas os perpetradores não são punidos; a punição - que ocorre em apenas 28% dos casos - só acontece ao final do filme - o que, muitas vezes, impede a percepção das próprias crianças . Na TV, a violência recompensa. Nos EUA, apenas 4% da programação possui um conteúdo anti-violência. A representação da violência na TV é "saneada" de tal forma que em 55% das cenas violentas não há dano visível às vítimas nem se sabe do seu sofrimento. Como se não bastasse, 40% dos incidentes violentos são iniciados por personagens com boas qualidade, o que permite uma fácil identificação das crianças. Para piorar o quadro, a maior dose de representações da violência consideradas de "alto risco" está concentrada na programação infantil, destacadamente nos desenhos animados. Não se trata, então, de estabelecer uma relação simplificadora entre a violência na mídia e a violência real. Trata-se de reconhecer o acúmulo teórico e as investigações empíricas que comprovam, à exaustão, que as representações da violência na TV são prejudiciais ao desenvolvimento moral das crianças e condicionam comportamentos agressivos. Ao mesmo tempo, sabe-se que a banalização da violência - transformada no mais das vezes em espetáculo - dessensibiliza, por um lado, e atemoriza, por outro. Tenho falado frequentemente neste tema e voltarei a ele. Por hora, estamos exigindo, na Câmara, a devida atenção para o problema da violência na TV; ao mesmo tempo, temos organizado discussões preparatórias para um projeto de Lei sobre a matéria. 14-02-2000 |























