| 500 ANOS DE MONÓLOGO? |
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| 27 de abril de 2002 | |
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Entre os autores de minha predileção, Hannah Arendt ocupa um espaço destacado. Suas reflexões produzem inquietação por oferecerem sentidos inesperados para fenômenos cotidianos ou mesmo para conceitos comumente empregados. Em "O Que é Política? (Bertrand Brasil, 1998) a filósofa sustenta que todo aquele que desejar conhecer o mundo tal como ele é só poderá fazê-lo se entender o mundo como algo comum a muitos. Como algo que se situa entre os seres humanos, separando-os e unindo-os e que se mostra a cada um de uma maneira diversa.
Por isso mesmo, o mundo só pode tornar-se compreensível na medida em que muitos falam sobre ele e trocam suas opiniões. Assim, para Arendt, só na liberdade de falar sobre o mundo nasce o mundo sobre o qual se fala, em sua objetividade mesma. Viver em um mundo real e falar sobre ele com os outros seriam, dessa forma, uma única e mesma coisa. Trata-se de uma posição central essa pela qual a autora sustenta que a política não surge no ser humano, mas entre os seres humanos. A política baseia-se na pluralidade do fenômeno humano e trata da convivência entre aqueles que, por definição, são diferentes.
A história de 500 anos desse jovem país esteve orientada, desde que aqui chegaram os colonizadores, pelo estranhamento diante da diferença e pela exclusão de todos os que não compartilhavam dos valores da metrópole e, a seguir, dos objetivos da elite econômica organizada pelo Estado. Como nosso país não viveu a experiência de uma revolução burguesa, o capitalismo foi introduzido por dentro das estruturas do antigo regime - notadamente a partir da capitalização do latifúndio, desde logo dependente e associado aos grandes centros financeiros. Sem ruptura significativa com a tradição monárquica, a República nos foi ofertada sem a radicalidade democrática das experiências norte-americana e européia. Mais de dois séculos de escravidão asseguraram outra parte das limitações conhecidas de um Estado conservador e patrimonialista cujos pilares se preservaram. Pois bem, o governo federal prepara, para esse mês, comemorações alusivas ao 500 anos. Os povos indígenas, o movimento negro organizado, os trabalhadores sem terra, entre outros segmentos populares, sustentam que não há razões para a festança. Que, antes disso, seria melhor refletir sobre nossa história de intolerância, massacres e discriminações como forma de superá-la efetivamente. Temos, então, duas perspectivas em torno de um mesmo tema. O mundo verdadeiro, diria Arendt, só pode emergir no diálogo e no contraste entre essas opiniões; entre os sujeitos que falam. O que se prepara, todavia, mais uma vez, é a exclusão do pensamento não oficial. Especialmente ao sul da Bahia, o poder monta barreiras nas estradas e pratica uma série de violências como a destruição pela PM do monumento construído pelos Pataxó em Coroa Vermelha. Essa perspectiva antecipa a possibilidade da violência e renova simbolicamente a vocação de um Estado pelo emudecimento dos "de baixo". Ao invés das muitas vozes das quais fomos feitos, uma única voz: a voz do Estado. A propósito: vivemos em um regime democrático? 17-04-2000 |























