| A Construção política da desigualdade racial no PT |
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| 18 de abril de 2002 | |
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Edmilson Santos dos Santos
Este texto surgiu, num primeiro momento, como forma de ampliarmos o debate sobre a eleição municipal de 2000 e a questão étnica no Partido dos Trabalhadores . Naquele momento salientamos que o momento político favorecia uma análise crítica mais pontual, pois o PT havia fortalecido a sua relação com o conjunto da sociedade. O PT estava dando passos firmes em direção a eleição de 2002. Mesmo num contexto desfavorável, face as dificuldades e os desafios colocados para governar o estado, conquistamos prefeituras importantes no Rio Grande do Sul e no país. Neste quadro, Porto Alegre torna-se cada vez mais a principal referência do PT em termos de administração pública. Por outro lado, percebemos também um certo estrangulamento eleitoral, principalmente em termos de legislativo municipal. O PT não conseguiu, apesar de todo seu investimento na cidade, ampliar a sua bancada na câmara dos vereadores. Para um partido popular esse elemento representava no mínimo um paradoxo. E foi justamente nesse encaixe entre partido e população que encontramos um espaço para discutir as questões raciais e o Partido dos Trabalhadores. No partido e na sociedade, a democracia não poderá ser vivida em toda sua completude, enquanto metade da população e maioria pobre for ignorada. O modelo de construção da elite dirigente. Não obtivemos a vitória no primeiro turno das eleições de 2000, apesar de termos construído, ao longo de doze anos - e isso acreditávamos que fosse o suficiente para nos distanciar no quadro político - alternativas importantes ao projeto de exclusão social imposto pelo governo federal e pela globalização. Nas duas regiões para onde fui convocado para acompanhar a eleição de primeiro turno, Passo das Pedras, pela manhã, e Cristal, pela tarde, nunca vi uma relação tão desfavorável aos nossos adversários, em se quando se tratando militância. E foi esse ponto - o contraste entre a rua e a urna - que me proporcionou uma reflexão sobre essa eleição, a qual quero socializar com os companheiros e companheiras. A votação que obtivemos para vereador nos obriga a uma reflexão radical sobre o processo de construção do partido. Pela primeira vez, não aumentamos o número de vereadores . Diminuímos o número de cadeiras na câmara, apesar da votação expressiva alcançada pelo então companheiro Fortunatti. Esperávamos, com essa candidatura, ampliarmos significativamente nossa bancada. Daí decorre uma primeira observação: o crescimento da candidatura Fortunatti não foi na direção de ampliação do nosso lastro eleitoral. Houve apenas uma migração interna de votos que já eram da legenda. Portanto, sua candidatura não pode ser analisada fora desse quadro, apesar dos quase quarenta mil votos. Para compreendermos esse estranho fenômeno, precisamos analisar o desempenho dos vereadores eleitos e o processo de construção políticas de suas candidaturas frente à sociedade. O primeiro detalhe que salta aos olhos é que 50% dos eleitos detinham cargos em nível de primeiro escalão e conquistaram mais de 70% dos votos. Em 1996, os três candidatos que tinham cargos de secretário foram eleitos. Em 1992, três foram eleitos e apenas um não . Esse é um indicador bastante forte de que os candidatos que detêm visibilidade pública têm maiores possibilidades de sucesso na eleição. Essa relação é tão evidente que muitos secretários se transformam candidatos a vereador a partir de sua passagem pelo executivo, como uma estratégia legítima para permanecerem no poder. Neste sentido, a máquina administrativa tem sido um importante aliado daqueles que desejam garantir uma vaga no legislativo municipal ou reforçar o seu poder, antes mesmo de constituírem uma base eleitoral no movimento social comunitário . A inauguração de obras, a resolução de problemas enfrentados pelas comunidades mais pobres ou o aparecimento em eventos nas comunidades têm sido mecanismos importantes de aproximação e de visibilidade positiva. Até então, apenas a continuidade das velhas formas colonialistas de fazer política das elites, marcar, deixar um sinal, criar uma relação de correspondência para que possa no futuro (durante a eleição) ser capturada, utilizada. Buscando traçar um perfil entre os candidatos eleitos desde 1988, encontramos o seguinte quadro: todos são brancos, de comportamento público heterossexual, possuem grau universitário, a maioria é homem (83%) e todas as mulheres que passaram pela administração e se candidataram foram eleitas. Isto demonstra uma certa regularidade entre as características acima apresentadas e as possibilidades de sucesso numa eleição proporcional. Neste caso, não está em jogo a representatividade dos diferentes grupos que compõem a sociedade. Quando relacionamos o quadro apresentado com os investimentos em campanha, o resultado nos aponta para um espectro ainda mais previsível e trágico. Na eleição de 2000, os dez vereadores eleitos correspondiam a 21% do total de candidatos. Eles investiram mais de 35% do total de gasto dos candidatos a vereador. Isto evidencia que, além das características apresentadas no parágrafo anterior, a quantidade de recursos investidos na campanha é um fator importante na definição do sucesso eleitoral. Os dados analisados até este momento desnudam um perfil de representante legislativo muito próximo ao padrão( estético inclusive) de classe média, idealizada pelas elites como representante de brasilidade. Aqueles de origem mais popular, negros, sem recursos financeiros, homossexuais, deficientes físicos (que também constroem cotidianamente esse partido) são os que estão em desvantagem numa disputa como essa. Na eleição de 1996, a média de investimento dos candidatos eleitos foi de R$ 22.588,49, enquanto dos não eleitos foi de apenas R$ 9.048,46. Isto significa que há uma concentração na renda que tem repercussão direta no sucesso da campanha. Uma concentração de renda muito criticada fora do partido, mas que internamente é utilizada como forma de diferenciar quem pode e quem não pode chegar ao poder. Apenas um candidato dos quatorze eleitos gastou menos do que os não eleitos, Renato Guimarães. Em 2000, a média de investimentos dos candidatos eleitos foi de R$ 34.623,00 e dos não eleitos foi de R$ 18.503,78. Há uma diferença brutal entre aqueles que postulam ocupar uma cadeira na Câmara de Vereadores e aqueles irão contribuir com a legenda. Os sujeitos históricos, sem recursos financeiros, têm menos possibilidades históricas de ocuparem uma vaga no legislativo do que os sujeitos históricos com recursos financeiros. Quando buscamos identificar o grau de eficiência das campanhas (gasto em campanha por número de votos), o quadro de desigualdade não muda. Na eleição de 1996, entre os dez candidatos que conquistaram os melhores índices na relação investimento voto, aparecem cinco que não alcançaram uma cadeira no legislativo. Talvez, se tivessem tido um pouco mais de recursos financeiros poderiam ter sido eleitos. Na eleição de 2000, o fenômeno se repete: cinco não se elegeram. Por outro lado, entre os cinco candidatos mais ineficientes em 96, aparecem três eleitos e em 2000, três suplentes. Como podemos observar, os que possuem maiores condições financeiras para bancar uma disputa estão em vantagem. Esta dinâmica despotencializa o trabalho daqueles que têm uma relação comunitária forte e uma menor capacidade de investimento. Sendo assim, o partido deixa de construir laços de identidade com setores importantes da população. Neste sentido, não é de se estranhar que o perfil dos candidatos eleitos se assemelhe em muito com o do padrão divulgado pelas elites nacionais ao longo da história do Brasil. Dos vereadores eleitos nas últimas quatro eleições, 81% não construíram suas candidaturas no movimento social comunitário , principalmente nas comunidades localizada na periferia da cidade. Isso significa que aqueles que constroem cotidianamente o partido, discutindo diretamente nas comunidades, estão em desvantagem no momento do pleito. Essa situação se transforma quando passam a obter apoio financeiro de algum grupo ou tendência. Já os "desapoiados" ou desafortunados, construtores anônimos da cidadania, continuarão anônimos na cena pública da cidade. Há candidatos que não fizeram nenhum voto na Restinga (talvez por falta de recurso para levar sua campanha até lá). Outros só se aproximaram dessa comunidade para se elegerem e fazerem os votos migrarem daqueles que possuem todo um trabalho comunitário naquela região . O que percebemos na eleição de 2000, é que os votos jamais migraram para candidatos que não estavam na cena pública , justamente os com menor capacidade de investimentos. Os dados apresentados demonstram que cargo de primeiro escalão e a quantidade de investimentos são elementos importantes no sucesso de uma campanha. Como um dos critérios para estar no primeiro escalão é ser branco (homens na sua maioria), de comportamento público heterossexual e com formação universitária, nós já sabemos que uns têm mais "competência" para se tornarem vereadores do que outros e de assumirem posições no primeiro escalão. Um outro dado importante, que vem a corroborar com essa análise, é que aqueles vereadores que passam pela administração direta têm maiores facilidades para aumentam sua votação na eleição seguinte . Quando permanecem na Câmara, esse crescimento é muito menos significativo ou apenas não se reelegem. Nas três últimas eleições, os quatro candidatos que saíram de uma secretaria e se candidataram pela primeira vez, foram eleitos em uma única tentativa: 100% eram brancos, de comportamento público heterossexual e com formação universitária. O movimento social desses candidatos é aquele construído com base na visibilidade pública, alcançado através da máquina pública, e com uma quantidade considerável de recursos financeiros. Por outro lado, poucos são os candidatos que concorreram mais de uma vez. Cerca de 70% dos candidatos a vereador (desde 1988) participaram da eleição somente uma vez . Parece haver algum fator que desestimula a continuidade desses projetos. Diante da falta de recurso e da impossibilidade de divulgar uma imagem pública positiva, muitos candidatos acabam desistindo de um novo pleito. Essa realidade só permanece porque a elite do Partido dos Trabalhadores não tem o menor interesse de pautar esse debate. Obter um crescimento eleitoral não é critério para aumentar as possibilidades de trânsito no partido. Gilberto Aguiar é o exemplo disso: nas últimas eleições foi o que registrou o maior crescimento de votação entre todos os concorrentes. Começou em 88 com 617 votos e em 2000, 2391; isso significou um crescimento de mais de 300% sem ter assumido nenhuma secretaria ou vaga na Câmara de Vereadores. Na Restinga ele foi responsável por 37% dos votos a vereador do PT. O resultado demonstra seu enraizamento no movimento popular, mas isso não foi o suficiente para que ele pudesse se eleger. Na última eleição municipal, os candidatos de comunidade tiveram maior sucesso do que nos anos anteriores; conseguiram eleger quatro vereadores. O fenômeno Fortunatti retirou votos de muitos que investiram, mas não tinham como competir com a sua visibilidade. Nesse caso, sobrou dinheiro mas não deu para competir com a visibilidade pública do Vice-Prefeito. Isto explica, pelo menos em parte, o porquê que os que menos sofreram foram os candidatos de comunidade. Aqueles que não possuem base eleitoral numa determinada comunidade tiveram que investir muito na campanha. A média de investimento dos cinco primeiros suplentes (todos não ocuparam cargos de primeiro escalão) foi de R$ 43.000,00, ou seja, dez mil a mais do que a média dos que foram eleitos. Isto demonstra o poder do poder econômico nas campanhas do PT. Em 1996, eram apenas dois candidatos apoiados fortemente por suas comunidades. Já em 2000, esse número subiu para quatro. Para alcançar esse resultado, dois candidatos de comunidades tiveram que aumentar significativamente seu investimento em campanha. Maristela Mafei teve um gasto de 138% a mais do que na eleição de 1996 e obteve um crescimento de 57% na sua votação, e Renato Guimarães, 212% nos gastos e uma queda em sua votação de 10% em relação à eleição anterior. Como pudemos observar, cinco candidatos vieram do primeiro escalão do governo municipal, dois , tiveram que ampliar em muito seus investimentos em campanha. O poder econômico e a visibilidade pública estão assumindo um papel cada vez mais decisivo na disputa pelo voto e na distribuição interna do poder no PT. Um outro ponto importante de nossa análise está relacionado à lógica de acesso aos cargos do primeiro escalão. Durante as quatro administrações municipais, a renovação do secretariado foi apenas de 40%. Todas as indicações da SME foram para uma única pessoa, Rejane Penna Rodrigues. Bertotto, Cezar Alvarez, Margarete Moraes, João Verle e Burmeister ocuparam por três vezes os cargos do primeiro escalão. Buchabqui, Darci Campani , Estilac Xavier, José Moraes, Arno Augustin, Hideraldo Caron, Guilherme Barbosa, Gerson Almeida e Dieter foram candidatos que ocuparam duas vezes cargos do primeiro escalão. O Governo Olívio no estado, apenas deu continuidade a essa política, indicando secretários que já haviam passado pelo governo municipal: Buchabqui, José Moraes, Bertotto, Maria Jaeger, Arno Augustin, Pilla Vares, Ilgenfritzi, Hideraldo Caron Vicente Rauber e Ana Paula. Bertotto é o campeão de indicações; em cinco governos, recebeu quatro. Há uma idéia de permanência no poder que credencia a eles uma certa competência acima de qualquer dúvida. O que não parece estranho para o partido é que todos os secretários apresentados são brancos, de comportamento público heterossexual, possuem nível superior e a maioria é homem. O pior é que este resultado não põe em questão o mito da democracia racial no Partido dos Trabalhadores. Todas as mulheres que participaram da administração direta nas cinco administrações petistas eram brancas, de comportamento público heterossexual e com formação universitária. Neste caso, podemos fazer a seguinte observação: ou o PT está formando um quadro técnico altamente competente e experiente para conduzir os projetos futuros ou o partido não tem interesse de produzir novos dirigentes para não democratizar (também racialmente) o acesso ao poder. Esse continuismo só interessa àqueles que enxergam o poder como uma extensão dos seus interesses individuais, e por vezes monárquico. Um outro ponto que queremos destacar, está relacionado à lógica de ocupação dos "CC" e "FG". Esses cargos, como são distribuídos pelos mesmos que estão no poder, apenas seguem os mesmos privilégios que encontramos no primeiro escalão. Na Câmara de Vereadores, mais de 90% dos assessores possuem o perfil hegemônico dos detentores de cargos públicos pelo Partido dos Trabalhadores. Portanto, há uma continuidade, em todos os níveis, de uma política velada de exclusão dos negros aos espaços de poder. Neste caso, nenhuma descontinuidade entre a sociedade e o partido. A hipótese de trabalho que analisaremos, a partir deste momento, parte do princípio de que isso não é uma coincidência. A prática política do Partido dos Trabalhadores tem seguido aquele processo de inclusão da raça branca que nós estamos cansados de acompanhar na sociedade brasileira. Mas, para que esse quadro não apareça com essa perversidade, os dirigentes partidários buscam articular um discurso solidário que tenta apagar os rastros deixados entre um sentimento de solidariedade aos desiguais e uma prática de continuidade dessa desigualdade quando no poder. A desigualdade racial no PT. O primeiro ponto que destacamos no texto diz respeito à visibilidade pública. Sabemos que a visibilidade pública, principalmente na era da comunicação e do marketing, é um importante instrumento de aproximação entre as pessoas, de cunhar estereótipos e de fortalecer identidades. Se observarmos através dos livros didáticos, bonecas, novelas e propagandas veremos rapidamente que há o predomínio da estética branca. As imagens definem o que é belo e aqueles que devem aparecer como ícones importantes de uma sociedade construída historicamente por um único modelo racial. Por todos os lados a sociedade se reconhece como branca e valoriza o homem e a mulher brancos. Visitando um shopping, observando os outdoors em Porto Alegre ou em Salvador ou a Câmara dos Deputados nessas duas capitais dificilmente imaginaremos que estamos em dois lugares com características étnicas bastante distintas. O resultado disso é apenas a extensão dessa brutal violência que é a exclusão do negro desse mundo da comunicação visual e da formação da identidade nacional. Muitas vezes, quando se busca escamotear ou encobrir este quadro, o negro recebe um papel secundário. Na propaganda da Guaraná Antártica, que tem muito movimento e cor, todos os negros estão de avental e servem os brancos. A novela Porto dos Milagres, que retratam a realidade da Bahia, a ampla maioria dos personagens eram brancos. Esse quadro é apenas reflexo da triste realidade a que é submetida a raça negra em nosso país. Primeiro, roubaram-nos o direito à liberdade; hoje negam-nos o direito de sermos percebidos como brasileiros . Assim como os índios, precisamos de datas para sermos lembrados e do dia seguinte para sermos esquecidos. Este quadro torna-se ainda mais trágico porque cunhado também com a participação do Partido dos Trabalhadores. Uma das formas mais violentas desse processo pode ser percebido no debate sobre a miscigenação. Tentam desconstituir os pontos de amarras entre nós e uma identidade afro-brasileira. Quanto mais clara é nossa pele, maiores serão nosso acesso no mercado de trabalho. Mas quando o assunto é visibilidade pública, nós sabemos bem de qual miscigenação a sociedade está falando. O último senso inclusive trouxe dados importantes para acabar com essa falácia: de cada cinco casais, apenas um é interracial. Mesmo com a miscigenação, a sociedade e o PT sabem o que é não ser branco: é só olharmos para o perfil étnico daqueles que nos atendem nos bancos, nas lojas, que estão na TV e que assumem o poder no PT. A elite esclarecida, tanto da direita quanto da esquerda, não conseguiu implementar ações positivas de forma a eliminar essa pasteurização estética da história do Brasil. Vejamos o caso do Partido dos Trabalhadores. Durante cinco governos, apenas um secretário negro, tardiamente por sinal. Isto foi anunciado como um compromisso de campanha do candidato Tarso Genro e não fruto de um processo de valorização da diversidade étnica existente no Brasil. Não podemos nos esquecer que 47,5% da população é negra nesse país. A sociedade permite, inclusive, que se criem estratégias dissimuladoras desse processo. É importante salientar que, para fugir do estigma de racista, as lojas contratam um ou dois funcionários para apagar seus rastros de preconceito . Como diria Milton Santos, aqueles que não possuem o direito ao livre exercício de sua individualidade e de sua imagem têm sua cidadania mutilada. Qual o interesse dessa elite branca do Partido dos Trabalhadores em não só indicar personalidades que sejam a imagem e semelhança de seus dirigente, como também garantir a elas a permanência no poder por dois, três e quatro mandatos? Para um partido que pretende transformar os valores da sociedade, sua prática depõe contra si. Um exemplo claro disso pode ser observado através de uma análise sobre o segundo turno da eleição de 1999 para a prefeitura de Porto Alegre Durante o primeiro turno, os negros faziam uma pontinha nos programas do PT, muito menor do que sua representatividade social. Já no segundo turno, até o gingle da campanha foi mudado para um samba, e os personagens que apareciam em primeiro plano eram negros. O PT queria ter uma cara mais popular e, portanto, negra. A porta-bandeira que aparecia no programa do segundo turno foi, durante muitos anos, primeira porta-bandeira da Escola de Samba Estado Maior da Restinga. Essa escola que fica numa comunidade de mais de 120.000 habitantes e de maioria negra, foi decisiva para a existência do segundo turno. Lá, o PT obteve o menor índice de votação de toda a cidade, 39,85% dos votos. Nesse momento, os "marketeiros" de plantão utilizaram a imagem negra para se comunicar com os negros . Cabe salientar que essa estratégia não nos diferencia daquela utilizada por ACM quando se associa aos ícones negros da Bahia para obter vantagem eleitoral junto a maioria negra. A tática é a mesma para conservar o poder na metade branca da sociedade. O segundo que ponto que pretendemos discutir, diz respeito às desigualdades na renda dos diferentes atores do processo de construção partidária. Para isso, vamos enquadrar esse debate no contexto da capital com melhores índices de qualidade de vida do país. Para definir melhor a qualidade de vida, os pesquisadores que estudam os Índices de Desenvolvimento Humanos (IDH) têm buscado aferir as desigualdades internas nas populações estudadas. Esse ponto, tão importante para uma análise aprofundada do tema, aparece no discurso da prefeitura de forma genérica, como se os benefícios dessa melhoria atingissem a todos da mesma forma. O importante para a prefeitura é exaltar a cidade e não fazer uma leitura mais detalhada desta realidade e perceber que sua política não tem diminuído a diferença entre negros e brancos na sociedade. A melhoria da qualidade de vida não atinge a todos da mesma forma. A inclusão do critério étnico no IDH permitiu interpretar o seu papel determinante no processo de exclusão social. Os estudos do economista da UFRJ, Marcelo Paixão , identificaram que a melhoria dos indicadores da qualidade de vida não significou a diminuição das diferenças entre negros e brancos. As condições sociais da população afro-descendente, desde a abolição, não foram capazes de integrar essa etnia de forma digna na sociedade. Para o pesquisador, o motivo desse atraso está relacionado ao modelo de democracia racial construído pela elite branca. Diminuíram-nos como cidadãos e empurraram-nos para a margem da sociedade. E os neo-abolicionistas do PT valorizaram-nos como cidadãos, mas não nos oportunizam espaços para vivenciarmos esse projeto também no poder. Parece que eles desconhecem a realidade social do negro no Brasil. A Rvista Isto É de 4/7/2001 sob o título de "O Brasil prefere o mito da democracia racial e fecha os olhos para a intolerância: preconceito oculto." Apresentou que 68,85% da população indigente é negra, 63,63% da população pobre é negra para uma população negra que perfazem 45,33% dos brasileiros. Os dados do IDH de 1998 confirmam a perversidade deste processo. Quando comparados à população negra da África do Sul, ficamos com o IDH cinco pontos abaixo. Nos EUA, onde a inclusão do negro se deu de uma forma mais tensa, a diferença entre o IDH desses dois grupos é de trinta pontos, enquanto que no Brasil ela sobe para sessenta pontos. Os estudos afirmam também que as taxas de desemprego são maiores entre os negros e são os que esperam mais tempo por um espaço no mercado de trabalho. De 1993 a 1996, das 250 denúncias de racismo pela Delegacia Especial de São Paulo, não houve nenhuma condenação. Ou seja, a sociedade não compreende que sua postura frente à população afro-descendente produz danos à metade da população brasileira. A partir desse cenário, não fica muito difícil compreendermos a dificuldade de ascensão dos candidatos negros a todos os postos do mercado de trabalho e na estrutura de poder do Partido dos Trabalhadores. Os candidatos negros do PT estão numa situação de desvantagem quando se trata de recursos financeiros e de visibilidade pública. Em 1996, a média de gastos dos candidatos negros foi de R$ 6.742,95, 235% menos do que os candidatos brancos eleitos. Em 2000, os candidatos negros aumentaram 66% a sua capacidade de investimento, mas sua distância não diminuiu; aumentou para 242% dos candidatos brancos eleitos. Quando comparamos os candidatos negros com os cinco primeiros suplentes, todos brancos, essa diferença sobe para 425%. Comparando com as mulheres eleitas, a diferença é de aproximadamente R$ 5.000,00, cerca de um terço da capacidade de investimento dos candidatos negros. Esses dados apenas reproduzem a relação entre negros e brancos nos estudos sobre desigualdade racial no Brasil. Internamente, não há ruptura com o modelo de democracia valorizada e divulgada pela população não negra. É essa população que possui uma cota de quase 100% dos espaços do mercado de trabalho em alguns postos que diz que a política de cotas é um racismo as avessas. É essa mesma população que silenciam diante da hegemonia da raça branca, incompatível com a formação étnica no Brasil. Até hoje não houve nenhum dirigente branco no Partido dos Trabalhadores se pronunciando contra a hegemonia branca nos cargos de primeiro escalão. Se observarmos que a renda média dos trabalhadores negros é muito menor que a dos trabalhadores brancos, somos obrigados a concluir que numa disputa onde esses dois grupos se confrontam, um está em melhores condições para colocar dinheiro em campanha ou receber os cargos mais importantes e salários mais altos. A análise se torna mais discriminatória quando cruzamos raça, condição financeira, gênero e opção sexual e desempenho em campanha e indicação ao primeiro escalão. Estes dados ilustrativos apenas referendam aquilo que os estudos de IDH afirmam com bastante precisão: a falta de recursos financeiros diminui a capacidade de mobilidade da população negra e que a diferença entre negros e brancos não diminuiu no último século. Como diria Milton Santos, os mais fracos sempre estão nas posições mais frágeis. A questão que fica é como explicar para a sociedade que um partido progressista e de mudança não consegue se contrapor internamente a uma política que há mais de 200 anos exclui os negros dessa sociedade? Que modelo de socialismo, solidariedade e justiça social nós temos para oferecer à metade da população negra e pobre? Se analisarmos também a distribuição dos "CC" e "FG" perceberemos a diferença entre o discurso do PT e sua prática política. É essa mesma elite branca que indica amigos e familiares brancos para assumirem o poder . Qual a participação dessa política na concentração de renda dos grupos brancos como demonstra os estudos de IDH? Na Câmara de Vereadores, menos de 10% dos "CC" são negros. Na administração direta, esse quadro deve se repetir de uma maneira mais perversa. Quanto maior o valor dos "CC" e "FG" menores são as possibilidades de encontrarmos negros no governo petista. Provavelmente são os mais rotativos dentro da política de dar espaço, solidariamente, a nossos companheiros, brancos. O que está evidente é que os grupos que administram esses cargos apenas dão continuidade às suas formas de perceberem o mundo. O mercado de trabalho no PT é fatiado numa perspectiva étnica, não para se contrapor ao instituído, mas para alinhar-se a ele. Nas cinco administrações petistas, só tivemos um secretário negro. Além do já citado, um dos motivos para garantir esse quadro está relacionado à idéia de permanência no poder que esse grupo tem. Quando não permanecem na mesma cadeira, como Rejane Penna Rodrigues, Luis Carlos Bertotto e Margarete Moraes, eles mudam para não configurar continuísmo, como Burmeister, Cezar Alvarez e João Verle. Isto não tem outro nome a não ser concentração de poder e de renda nas mãos do seguimento branco do partido. Como um partido que não consegue resolver internamente essa questão pode ter um modelo de distribuição de renda que atenda aos interesses dos negros? Até hoje essa elite não se pronunciou à proposta de cotas do Governo Federal, talvez porque o modelo petista seja melhor! Neste momento, cabe salientar que o PC soviético também construiu, ao longo do tempo em que permaneceu no poder, uma estrutura de continuidade muito próxima daquela utilizada pela nobreza durante a Idade Média e pelo PT hoje. Não há nenhum problema em que essa tese seja a verdadeira. O que não se pode é utilizar um discurso de que todos somos sujeitos da história, quando a história se resume a carregar bandeira para alguns e as benesses do poder para outros. Essa questão deve ficar clara para que se acabe com o discurso oportunista de democracia racial, solidariedade e justiça social pelo Partido dos Trabalhadores. Um exemplo desse discurso é aquele que trata da militância paga. Uma primeira observação que se deve fazer é que não se pode extrair essa questão do conjunto do debate da distribuição do poder e da renda no PT. Só paga a militância aquele candidato que tem dinheiro, portanto se paga, é porque pode. Só recebe pela militância aquele que tem necessidade. Observando por essa óptica, esse mecanismo é muito eficiente em termos de distribuição de renda. Um segundo ponto é que esse dinheiro tende a atender, principalmente, pessoas pobres e negras da periferia. Essas pessoas apenas negociam com certos candidatos uma forma de se utilizar da imagem do primeiro para obter vantagem eleitoral para o segundo. Os críticos, na sua maioria brancos, nunca elaboraram um documento solicitando ou exigindo paridade financeira entre os candidatos e igualdade no acesso ao poder. Também nunca exigiram que os "CC" e "FG" fossem distribuídos de forma a garantir rotatividade no poder. Por outro lado as perguntas que ficam são: Não são esses "CC" e "FG" que fazem campanha para aqueles que lhe dão emprego ? Qual a diferença entre o militante pago pela folha de pagamento de seu grupo político e o Zé que empresta a sua imagem em troca de R$10,00 ? Por serem os mais pobres, não são os negros os mais favorecidos com esses R$10,00 ? Ao descontextualizar essa problemática, o que essa elite branca quer dizer? Se é por princípio, nenhum princípio é superior a distribuição mais equânime da renda nacional. Nesse caso, as eleições é um momento histórico importante na distribuição da renda. O papel dos "CC" e "FG" numa campanha é o mesmo daqueles que tentam, legitimamente, garantir seu espaço no mercado de trabalho. Trabalham por uma causa que os mantêm no poder. No caso do debate sobre gênero, concordamos com Milton Santos quando dizia que essa luta vigorou, porque foi travada por dentro da classe social que é branca. Os avanços conseguidos pelos homossexuais (União Civil) têm o mesmo motivo. No caso das mulheres, a sociedade reconheceu, tardiamente, que elas haviam sofrido ao longo da história um processo de exclusão muito grande que as colocava em desvantagem. A lei dos 30% de vagas nos partidos veio para dar um ponto de partida à participação mais efetiva da mulher no cenário político. Nesse caso, a tão proclamada luta de classe não era o mecanismo ou a bandeira mais eficiente para incluí-las no panorama político. Incluídas as mulheres, cessou o discurso de inclusão. Já passaram pelo primeiro escalão dos governos petistas Ester Grossi, Sônia Pilla, Lires Marques, Maria Jaeger, Margarete Moraes, Rejane Penna, Ana Paula e Lúcia Camini. Todas mulheres brancas e com formação universitária. Neste sentido, a história que o Partido dos Trabalhadores está trilhando é apenas a continuidade de um processo brutal de exclusão da comunidade negra e de outras minorias/maiorias da história política do país. Para nossos redentores, para não dizermos algozes, não há motivo para tanta discussão, afinal de contas todos somos trabalhadores e estamos do mesmo lado na luta de classe . O PDT, no Rio Grande do Sul, é o partido que melhor trabalha esta questão. Não porque fez um prefeito da capital e um governador negro, mas sim porque sua estrutura interna permite que um negro chegue a esta posição e que outros consigam alcançar o posto de secretários de estado. Espero que com a entrada de ex-pedetistas no partido, eles e elas possam oxigenar racialmente o debate interno. O problema se agudiza quando esta política racista tem implicações para o conjunto da sociedade. O caso do carnaval de Porto Alegre é um exemplo. A idéia de empurrar o sambódromo para distante do centro está muito próxima as reformas higienistas no início do século. Ao não fazer o enfrentamento, que é racial, o PT está desvalorizando uma cultura que até hoje é sinônimo de resistência. Nós negros carnavalescos sabemos se fosse uma festa de tradição européia, como estas que tem em outras cidades de nosso estado, onde as pessoas bebem, dançam e cantam, a realidade seria outra . O PT poderia ter sido mais honesto e democrático com a sociedade e proposto um plebiscito. A maioria branca talvez poderia propor algo mais original par o carnaval de Porto Alegre |























