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08 de setembro de 2004 |
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Em 26 de agosto de 2004, recebi a seguinte mensagem de Caroline P.
"Marcos Rolim, tu tens problemas mentais? Deves ter, não é? Se o Melara deve ter os seus 'direitos humanos' preservados e deve ter uma chance de se socializar, qual é o direito que eu, uma cidadã que paga impostos e não infringe as leis tem? Esse monstro, como muitos outros (políticos inclusive), devia acabar numa vala com um tiro no meio da testa. Por que razão tu não defendes o meu direito de andar pelas ruas de Porto Alegre sem medo?"
Prezada Caroline P.:
Acho que tens razão. Devo ter, mesmo, algum problema mental. Uma deficiência, talvez. Não consigo julgar pessoas que nunca vi se mesmo aquelas que conheço às vezes me escapam à compreensão. Sempre que recebo pela imprensa notícia sobre a conduta criminal de alguém, minhas dificuldades aumentam.
Não entendo, por exemplo, por que alguém que foi condenado pela prática do crime de assalto, por exemplo, segue sendo nomeado pelos jornais, 20 anos depois, como "assaltante". Será possível que a identidade dessa pessoa seja reduzida a um evento delituoso? Na moderna criminologia, a "Teoria da Rotulação" (Labelling Theory) tem insistido que pessoas rotuladas como delinqüentes tendem a assumir esta identidade pública e que aquelas que praticaram delitos e que não foram rotuladas possuem chances maiores de recuperação. Bem, tenho uma estranha tendência a acreditar nos outros e acho que pessoas que praticaram crimes podem construir novos caminhos. Não consigo compreender a justiça como o equivalente de "vingança", ou aceitá-la como imposição de dor e sofrimento. Imagino que quando a justiça é pensada como retribuição do mal terminamos produzindo mais injustiça. Meus problemas mentais são tão graves que não me passa pela cabeça que uma eventual liberdade concedida a Dilonei Melara possa atrapalhar o direito de alguém passear pelas ruas. Não senti receio dele nas inúmeras vezes que me desloquei pelos corredores da Pasc, ou nas vezes que me entrevistei com o próprio, em uma sala, sozinho, sem seguranças por perto e depois de pedir que lhe retirassem as algemas. No motim de 1994, no Presídio Central, me ofereci para acompanhar Melara até uma grade onde os amotinados - armados com revólveres - pudessem discutir comigo e com o hoje desembargador Scapini (certamente também uma pessoa "perturbada") a liberação de reféns. Também nesse momento não senti medo. Como podes ver, minha situação é mais grave do que parece. Acho até que pessoas que desejam que outras venham a ser encontradas "em uma vala com um tiro na testa" são, tendencialmente, perigosas porque - se tiverem a oportunidade - podem mesmo dar um tiro na testa de alguém. Mas - veja só - também esta possibilidade não me faz desejar o mal para elas. Pelo contrário, minha doença faz com que eu tenha a vontade de ajudá-las a compreender que o mundo pode ser melhor quando não carregamos o ódio no coração e quando estendemos a mão para os outros. Bem, mas isso é só uma parte dos meus sintomas. Na verdade, Caroline, sou um caso perdido.
Atenciosamente.
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