| O AMOR, ESSA INVENÇÃO |
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| 12 de agosto de 2003 | |
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A Sagrada Congregação acaba de atualizar as posições da
Igreja Católica contra a homossexualidade. O texto que terminei de ler,
assinado pelo Cardeal Ratzinger, afirma que "as leis que reconhecem as
relações homossexuais são contrárias à reta razão porque asseguram garantias
análogas ao matrimônio". A "profundidade" do raciocínio me fez lembrar que,
na Idade Média, quando se perguntava por que o ópio adormecia, se dizia: "-
Em virtude de suas propriedades dormitivas". Segundo o Vaticano, as Escrituras condenam a homossexualidade. Por certo - descontadas as dúvidas sobre tradução - há passagens bíblicas assim. Em Levíticos, por exemplo, o que se determina é a morte dos homossexuais. Aliás, segundo o mesmo livro, a morte deveria ser a resposta para os casos de adultério e bestialismo, os homens não poderiam aparar a barba e mulher que dormisse com o sogro deveria ser mandada com ele para a fogueira. A pergunta, então, é: estão valendo essas regras? Certamente não. Elas dizem respeito a outra época, afastada de nós por mais de 2 mil anos, é o que todos diriam. Mas, então, por que o texto valeria para a homossexualidade? Poderíamos lembrar Samuel (1:26), entretanto, onde Davi diz a Jonatas: "Tua amizade me era mais maravilhosa do que o amor das mulheres. Tu me eras deliciosamente querido!" Ou Eclesiastes (4:11): "É melhor viverem juntos dois homens do que separados. Se os dois dormirem na mesma cama, se aquecerão melhor." "Aquecer"? No clima da Judéia? Seja como for e conforme se pode ver, as Escrituras não constituem "ciência exata" a não ser no sentido de que se pode tirar delas "exatamente" o que se quer. Por fim, o documento ampara sua homofobia na idéia de que a homossexualidade é "contrária à natureza". Bem, os humanos inventaram os sentimentos apaixonados e não há nada de similiar a eles no mundo natural. Ainda se pensarmos apenas nas relações heterossexuais, onde encontrar a natureza na disposição de acarinhar? Onde descobri-la em nossas fantasias? Haverá, por ventura, uma base natural para o beijo? Um secreto desígnio para o sexo oral? Ora, se o argumento da "natureza" fosse levado a sério, não só seríamos incapazes de compreender a sexualidade como transformaríamos as relações sexuais em uma chatice insuperável. A penicilina é "anti-natural", a democracia também, tanto quanto esse jornal, o lugar onde o leitor está sentado, os objetos que lhe são próximos. Nós, os humanos, criamos uma natureza-para-nós. Uma natureza humana e histórica. O que há de mais generoso nela é o amor que inventamos pelas pessoas. Assim, a Igreja não deveria se preocupar com as preferências dos que amam, por mais distintas que sejam as formas desse amor. Sua posição sobre a homossexualidade, infelizmente, termina ajudando aqueles que apreenderam a odiar e os que odeiam, odeiam sempre do mesmo jeito. |























