| A IMAGEM DE JANUS |
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| 20 de novembro de 2003 | |
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Janus, o Deus romano dos portões, que protegia os começos e os finais, possuía duas faces voltadas para direções opostas. Um simbolismo expressivo quanto ao fenômeno humano cuja liberdade o coloca sempre em contato com possibilidades conflitantes. Cena Um: Dias atrás, a BBC levou ao ar uma reportagem que chocou o Reino Unido. Mark Daly, um dos seus repórteres, havia se inscrito no curso que seleciona integrantes para a Polícia de Manchester. Daly passou nos testes e formou-se policial chegando a exercer, por curto período, as funções normais de patrulhamento. O que ninguém sabia é que ele portava uma micro-câmera em seu colete e só estava ali para realizar aquela que seria a mais impactante matéria sobre o racismo nas polícias britânicas. A edição para a TV mostrou o que uma parte dos policiais pensa a respeito dos imigrantes e das etnias minoritárias. Alguns, planejavam espancar um colega asiático; outro afirmou que os assassinos de Stephen Lawrence (um jovem negro esfaqueado em Londres por garotos brancos) mereceriam “imunidade diplomática”e vários manifestavam ódio com relação a indianos e paquistaneses. A face oculta daquela que talvez seja a melhor polícia do mundo ficou, então, à mostra e qualquer um que a tenha visto só pode lembrar-se dela com horror. Corte, cena dois: Durante os últimos 50 anos, o Exército Britânico tem se utilizado das montanhas do Quênia, na África, para realizar treinamentos militares, em uma relação que remonta aos tempos do colonialismo. As atrocidades praticadas pelos ingleses contra os africanos que lutaram pela independência nunca poderão ser, de fato, conhecidas, mas 650 mulheres quenianas (sim, 650 mulheres!) estão dispostas a depor para relatar os estupros de que foram vítimas ao longo dos anos e apontar os militares que, ainda hoje, os praticam em verdadeiras “caçadas”na região. Fossem essas mulheres européias brancas, estaríamos diante de um escândfalo mundial que colocaria por terra a imagem cultivada pelos militares ingleses com suas histórias de bravura e cavalheirismo. O racismo não declarado, entretanto, permite que o caso seja tratado como um “incidente a ser investigado”, nada mais. O que se pode dizer é que a “outra face”do Exército Britânico foi mostrada nas montanhas do Quênia. Corte, ato de encerramento: A partir dos chamados “self-reported studies”, pesquisas onde se assegura o anonimatoabsoluto das respostas, sabe-se que o número daqueles que praticaram algum crime em suas vidas é impressionantemente elevado, o que não deixa de ser perturbador. O ser humano é o único entre os animais que precisa do julgamento dos outros. Em certa medida, ele deve sua existência ao olhar dos demais. Sem esse reconhecimento, seríamos pouco mais do que fantasmas. A questão mais relevante quanto ao crime, então, parece ser não por que ele é praticado, mas sim por que as pessoas não o praticam. Penso que a principal razão seja a de que não gostaríamos que nossa “face oculta” fosse identificada como a nossa face. Os policiais racistas flagrados por Mark Daly jamais repetiriam seus preconceitos em um espaço público e os soldados estupradores partiram do pressuposto de que algo que aconteça em uma montanha africana jamais seria conhecido. Isso talvez nos ofereça uma sugestão: se quisermos que o “lado B” de Janus não apareça, é preciso o controle p[ublico sobre as instituições. Iluminemos o cenário e os atores saberão cumprir seu papel, essa é a regra. A obscuridade estimula o que há de pior na aventura humana e, nessas circunstâncias, ninguém estará livre de se horrorizar diante da própria face. Acho que a “Operação Anaconda” está dizendo isso ao Judiciário e o alerta vale para todos os Poderes e instituições. |























