| UM OUTRO OLHAR É POSSÍVEL |
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| 23 de outubro de 2002 | |
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“Os olhares são muitos, pode-se dizer. Há o olhar apaixonado que se entrega e brilha; há o olhar desesperado que se perde de si mesmo e o olhar enlouquecido que já não olha exatamente. Há um olhar que submete e outro que liberta; há um olhar profano que quer saber e um olhar sagrado que pensa que sabe; há um olhar que acolhe e outro que amedronta; um olhar que ama e outro que afronta; um olhar inocente e um olhar culpado ; um olhar sincero e um olhar forçado. Há um olhar que se derrama e que fácil, se descobre o nome e outro, feito chama, que nos invade e consome. Há um olhar que vem e outro que se esvade; um olhar inteiro e outro pela metade. Os olhares são muitos, pode-se dizer.” Nossa época assiste a emergência do fundamentalismo como um fenômeno político tão considerável quanto assustador . Na base das diversas concepções fundamentalistas encontraremos, sempre, a idéia segundo a qual seus proponentes se identificam como porta vozes da verdade. No caso do fundamentalismo religioso, notadamente em suas variáveis islâmicas – mas também na maioria das crenças ocidentais, a verdade é concebida como “revelação” sendo, portanto, expressão do “sagrado”. Entre os muçulmanos, este pressuposto aparece em seu estado “puro” na relação com o próprio texto. Os cristão acreditam na encarnação, na assunção da forma humana por Jesus, concebido como o filho de Deus . Mas os muçulmanos acreditam na inlibração, a incorporação de Deus em um livro, o Alcorão. Pelo dogma , o Alcorão é incriado; existe desde a eternidade. As suas palavras são as palavras de Deus. “Islam”, não casualmente, é o termo árabe para “obediência” ou “submissão”. Por essas circunstâncias, para um muçulmano crente, criar é um ato imprudente ou perigoso. Um dos símbolos mais eloqüentes do fundamentalismo é por certo, a Burca: uma espécie de segunda pele a recobrir os corpos das mulheres nos espaços públicos.Com a veste, assegura-se a invisibilidade daquelas cuja existência confunde-se com um espectro. O feminino está “guardado”pela Burca, guardando para o uso privado dos seus senhores. O hábito, criado por uma tradição opressiva e revoltante de exclusão das mulheres, não permite sequer que os olhos femininos sejam vistos. O olhar que a Burca esconde é, assim, um olhar fragmentado, dividido pelo que se lhe oferece como impossibilidade. Não há encontro nesse olhar, não há olhar compartilhado. Atrás da Burca, há então, sobretudo, uma ausência; uma ausência do reconhecimento pelos outros. Se pensarmos um pouco no olhar que as mulheres podem ter com a Burca, haveremos de concluir que eles lhes assegura a lembrança constante de uma prisão. Entre elas e o mundo há uma tela, um limite inexpugnável. Tudo o que lhes for possível vislumbrar no espaço público estará marcado pelas sombras e pelo tracejado dessa tela. Essa condição pode ser lembrada, também, para o olhar daqueles que foram possuídos pelas ideologias. O “olhar ideológico” é aquele que só pode enxergar as sombras autorizadas por seus limites. Nos referimos a um olhar específico que só reconhece aquilo que já foi visto e que, portanto, não se surpreende. Trata-se de um “olhar” adoecido este. Um olhar que distorce o que vê reconhecendo como legítimas apenas as imagens que confirmam o que se pretendia ver. Um olhar, no mais, que volta-se sempre para o horizonte, para o futuro, mas que parece ter dificuldades extraordinárias em reconhecer o que está perto, o presente. Pelas ideologias, os sujeitos modernos elencaram a pretensão de “explicação total” dos fenômenos sociais. Entre a esquerda, essa pretensão encontrou na tradição marxista um leito fértil para a reprodução de práticas intolerantes e autoritárias. Na base dessas condutas, a antiga idéia de posse parece ser renovada a cada palavra de ordem. Se queremos um outro mundo e se imaginamos que ele é possível seria, então, preciso estar atento para aquilo que do “velho mundo” ainda carregamos como uma tatuagem incômoda. Em outras palavras: deveríamos tratar de nos livrar de nossas Burcas. Assistimos a um processo global de profundas modificações políticas, econômicas e culturais. As modernas conquistas da ciência permitem à imaginação um conjunto ilimitado de expectativas benignas. De fato, nunca como nessa época a humanidade dispôs de um conjunto tão amplo e fascinante de possibilidades quanto ao seu futuro. Paradoxalmente, nunca estivemos tão distantes da afirmação da modernidade se a entendermos como um projeto de superação da “menoridade”; dito de outra forma: nunca nos apartamos tanto do apreço pela conquista de um mundo onde a vida digna e a ação autônoma fossem asseguradas a todos, indistintamente. Essas contradições de nossa época deveriam atormentar as sociedades, mas, surpreendentemente, parecem sedá-las. Vivemos imersos em um mundo progressivamente subordinado à velocidade, onde os espaços se afirmam para além de qualquer distância. Também por essa razão, o tempo nos escapa. A fruição asila-se na memória de um tempo “mais lento” e é substituída pelo frenesi de sociedades tão competitivas quanto dispersas. Há uma “ordem da coisas” que se desprega dos sentidos com os quais ainda pretendemos aprendê-la. Para todos os efeitos, é como se o “espírito objetivo” dessa época não se encontrasse mais em qualquer conjunto de valores. Desconectados da transcendência, descrentes quanto às possibilidades de um novo regramento da sociedade. assoberbados por desafios menores, os indivíduos tendem a um mergulho cada vez, mais radical na esfera privada e, ao invés de se diferenciarem, parecem fadados à multiplicação serial. Com o efetivo processo de “clonagem dos seres humanos” não é aquele espetacularmente anunciado pelas projeções ficcionais da ciência ou temido pelo ideário religioso, mas esse outro – bem mais próximo – de natureza cultural que nos identifica pela irreflexão que herdamos, que nos indiferencia pelos preconceitos que compartilhamos, ou pelas angústias que nos paralisam. Vivemos um tempo onde o original é cada vez mais raro onde nos aproximamos da “reprodutibilidade técnica”. Parafraseando Walter Benjamin, é como se os indivíduos perdessem sua “aura”, vale dizer: sua autenticidade. Esses processos são muitos evidentes na atividade política em sentido estrito. Cada vez mais, o discurso político contemporâneo modula-se pelas expectativas de identidade frente às aspirações médias dos eleitores. O fenômeno, tradicionalmente característico do conservadorismo, já encontra espaços generosos na militância de esquerda. Assim, ao invés de idéias claras que se apresentem consideração pública, o que temos é a repetição de fórmulas sem qualquer densidade pelas quais se procura justificar a existência de um “projeto” cuja realidade mesma é fantasmagórica . Enquanto isso, por conta de um pragmatismo assoberbado e dpo predomínio dos mais tradicionais interesses associados ao poder do Estado, passa-se a reproduzir métodos e atitudes de caráter excludente, processo que parece ser coadjuvado por uma tensão sempre maior em direção a práticas descompromissadas com qualquer plataforma moral. O passado que pretendíamos expulsar renasce, então, em nossos domínios. Nesse momento, as ideologias costumam ser convocadas para prestar o serviço de encobrir as contradições e aquilo que todos sabem ser um limite vira virtude, o que constitui um erro é tomado como novidade e o que assinala uma estupidez, coragem. Ao mesmo tempo, aquele que se levantar contra o Estado-Partido em nome da liberdade de opinião carregará, onde quer que vá a marca da suspeição. Por suposto, exige-se também aqui a obediência e o “bom” militante passa a ser identificado com aquele que, simplesmente, acredita. A reflexão crítica, por decorrência, é não apenas dispensável, mas delinqüente. Tudo o que for dito deve estar subordinado a um cálculo pelo qual os interesses do Poder devem prevalecer sempre. Os que não compartilharem desse ritual serão, obviamente, “inimigos”. Ou será que deveríamos dizer: “infiéis”? Dito isso, não seria demais insistir que um novo olhar é possível. Notadamente nessa época, após o fracasso visceral das experiências que tentaram aproximar a utopia socialista e diante da rotunda incapacidade do sistema capitalista em oferecer na maioria do planeta um sentido humano à existência, são os Direitos Humanos e os movimentos sociais que neles se inspiram os construtores da trincheira mais urgente e tangível para a derrota da barbárie. Assim, ao invés de tentarmos renovar a utopia socialista, desafio que já se revelou no todo infeliz na história universal, ou de nos contentarmos com o necessário processo de reformas derivado da luta democrática, seria melhor se recolhêssemos o patrimônio dos Direitos Humanos como a promessa mais generosa de uma humanidade em busca de sua grandeza e tê-la como nosso horizonte concreto. Com esse olhar, recusaremos as certezas políticas em troca de princípios de natureza moral. O que significa que ao agirmos, haveremos de lidar com o imenso desconforto de saber que nossas posições – que sustentamos com base naquilo que nos parece ser o interesse público – expressam tão somente uma atribuição de sentido que se realiza como uma aposta. Por conta dessa característica, a luta pelos Direitos Humanos vincula-se essencialmente à afirmação da democracia. E se, como pensava Montesquieu, cada tipo de governo tem o seu princípio – a “honra” na Monarquia e a “virtude” na República e o “terror” no despotismo – poderíamos acrescentar, lembrando Hannah Arendt, que o totalitarismo exige a noção de “verdade”. A democracia é, entre todos os regimes, aquele que de uma forma mais acabada afasta-se da “verdade”. A democracia é, entre todos os regimes, aquele que de uma forma mais acabada afasta- se da verdade. Suas razões, afinal, serão sempre aquelas a que se chegou por conta de um debate; seus motivos, os que parecem mais justos. Nesse quadro, a utopia dos Direitos Humanos está a nos lembrar que a tolerância, como respeito pelo outro e valorização da diferença, talvez seja apenas a sabedoria que supera o que há de temível na idéia da verdade.Com esse olhar, imaginamos, é possível uma outra política. “Os olhares são muitos, pode-se dizer. Há um olhar de verão, olhar de mormaço para o chão grudento e as paredes suadas. Olhar para os açudes, olhar de rede e descanso. Há um olhar de outono; olhar ventoso para as folhas do plátamo; olhar para as básculas e os relâmpagos. Há um olhar de inverno; olhar de veludo e pelúcia; olhar de fogo e de vinho. Há, sobretudo, um olhar de primavera, um olhar de setembro que anuncia a mudança; um olhar de olhos cheios de estrelas, um olhar de bandeiras. A propósito, qual é mesmo o seu olhar? Marcos Rolim Porto Alegre, janeiro de 2002 II Fórum Social Mundial |























