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NÓS E O HORROR Imprimir E-mail
12 de maio de 2002
A semana que passou foi marcada pela tragédia de um dos mais graves acidentes aéreos de nossa história. O Fokker da TAM, alguns segundos após a decolagem no aeroporto de Congonhas, desabou sobre uma região densamente povoada em Jabaquara-SP, espalhando a morte e o fogo. Até agora, não se sabe ao certo o número de vítimas fatais - a imprensa tem apresentado dados diferentes próximos à centena - nem foi possível, ainda, identificar todos os corpos carbonizados. O acidente obteve larga repercussão na imprensa brasileira e trouxe à discussão várias e importantes questões. Discute-se, no momento, o estado real de segurança de nossas aeronaves; a política de manutenção sustentada pelas empresas aéreas; a possibilidade real de interferência nos controles de vôo de aparelhos eletrônicos, telefones celulares ou mesmo rádios piratas; a localização dos aeroportos, etc...

Há, entretanto, um tema que permanece obscuro, que não tem sido comentado, sequer percebido. Refiro-me à relação que costumamos estabelecer com as tragédias. Elas nos interessam sobremaneira. Despertam nossa atenção. Até aí, nenhuma novidade. Como fatos singulares, excepcionais, acontecimentos do tipo devem mesmo se destacar despertando curiosidade. O problema é que, não raras vezes, as pessoas se debruçam sobre a tragédia com especial interesse. De uma forma, digamos, prazerosa. Tudo se passa como se fosse possível retirar das cenas de horror algo além do espanto e da dor. O fenômeno pode ser percebido, facilmente, pelo fato de que muitas pessoas procuram efetivamente o contato com tais cenas e excitam-se com elas. O sucesso das páginas policiais que retratam os crimes mais violentos; a enorme audiência de programas que se nutrem da violência como "Aqui e Agora", a atenção conferida pela imprensa à barbárie contemporânea e a forma quase sempre detalhada com que suas manifestações são descritas, parecem confirmar esta tendência.

O fenômeno, não obstante, revela pouco mais que um sintoma. O que parece se constituir, ao final desse século, é um processo mais amplo, responsável por profundas alterações nos sentimentos e na sensibilidade dos humanos. As sociedades de massa (constituídas pelos "mass midia") são capazes de trilhar o caminho das lágrimas por conta do destino reservado a um personagem da novela das oito, mas parecem cada vez mais distantes de qualquer emoção diante do drama real que lhe é oferecido cotidianamente. Nos acostumamos com as cenas de horror e, por conta disto, o mal que elas evocam se banalizou. O que ainda não se observou é que muitas pessoas, talvez, tenham passado a necessitar daquelas cenas. Possivelmente nossa época esteja, então, a produzir uma geração de "voyeurs do horror"; vale dizer: uma sensibilidade nova e assustadora definida pela morbidez.

04/11/96
 

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